Por Hilton César Neves da Silva- Há pessoas que atravessam a história sem fazer barulho. Não ocupam palanques, não procuram homenagens, não escrevem o próprio nome nas paredes do tempo. Apenas vivem. E, vivendo com dignidade, fé e bondade, acabam se tornando parte da memória de um povo.
Assim foi Raimunda Nonata de Sousa Mendonça Frazão, a nossa querida Dona Mundoquinha. Para uns, Mundoquinha. Para outros, Tia Mundoca, Vó Mundoca, professora Raimunda. Muitos nomes carinhosos para uma só mulher, porque cada pessoa que se aproximava dela parecia encontrar um jeito próprio de chamá-la. Era como se o afeto multiplicasse seu nome.
Professora municipal, Mundoquinha pertenceu a uma geração de educadoras para quem ensinar ultrapassava os limites da escola. A educação estava também na maneira de receber alguém em casa, na delicadeza da palavra, no respeito pelo próximo, no silêncio diante das dificuldades e, sobretudo, no testemunho da própria vida. Em 19 de maio de 1951, casou-se com Antonio Uchôa Frazão, o conhecido Tunico Frazão, formando com ele uma família que se entrelaçou profundamente com a história de Presidente Vargas. Do casamento vieram Raimundo, Hedwiges, Antonio Uchôa Frazão Filho e Sérgio Murilo, além da filha adotiva Eliziane.
Ao lado de Tunico, construiu sua casa, sua família, suas lembranças e sua caminhada cristã. Quando ficou viúva, em 1991, precisou aprender uma outra forma de companhia: aquela feita das recordações, das orações e da saudade. E seguiu. Seguiu como sempre fizera: com fé.
A religiosidade não era, para Dona Mundoquinha, um adorno reservado aos domingos ou às festas da Igreja. Era parte de sua existência. Devota de Nossa Senhora e de Santa Luzia, legionária e integrante do Apostolado da Oração, encontrou na espiritualidade o sustento para atravessar alegrias, dificuldades, despedidas e as inevitáveis transformações do tempo. Talvez por isso houvesse nela tanta serenidade.
Sua oração parecia continuar mesmo quando seus lábios estavam calados.
Quantas Ave-Marias terão acompanhado as noites daquela mulher? Quantos nomes ela terá colocado diante de Nossa Senhora? Quantas preocupações entregou silenciosamente a Deus? Quantos filhos, netos, parentes, vizinhos e amigos foram guardados em suas preces? Somente Deus sabe.
E talvez estivesse justamente aí uma das maiores grandezas de Mundoquinha: ela não precisava anunciar o bem que fazia.
Fez do silêncio uma linguagem. Fez da humildade sua maneira de caminhar. Fez da fé sua fortaleza. Dona Mundoquinha também foi uma verdadeira testemunha do tempo de Presidente Vargas. Seus olhos acompanharam uma cidade que cresceu, mudou de feição, viu famílias chegarem e partirem, ruas se transformarem e gerações se sucederem. Foi uma das últimas testemunhas vivas da emancipação e da instalação política do município.
Enquanto muitos acontecimentos ficaram registrados nos documentos oficiais, outros permaneceram guardados na memória daqueles que estavam lá. Mundoquinha carregava uma parte dessa história consigo. E carregava do jeito dela. Sem ostentação. Sem querer ser protagonista. Guardava tudo no coração. Talvez tenha visto Presidente Vargas ainda com a simplicidade dos primeiros tempos. Depois viu o município crescer, as famílias se multiplicarem, os costumes mudarem, as novas gerações ocuparem os espaços que antes pertenciam aos mais antigos.
Viu nascer gente.
Viu crianças crescerem.
Viu filhos constituírem famílias.
Viu netos chegarem.
E também viu partir muitas pessoas.
Ao longo de tantos anos, despediu-se de grandes amigas e companheiras de caminhada. Uma a uma, muitas vozes familiares foram silenciando ao redor dela. E Mundoquinha ficou.
Era como uma árvore antiga que permanecia de pé no quintal enquanto as estações passavam.
Não porque desconhecesse a dor, mas porque aprendera a transformá-la em oração.
Não porque nunca tivesse motivos para chorar, mas porque possuía aquela sabedoria simples das mulheres fortes: continuar apesar de tudo.
Quem conviveu com ela dificilmente guardará a lembrança de uma mulher de reclamações ou amarguras.
Ao contrário.
Sua marca era a acolhida.
Era difícil perceber zanga naquele rosto. Mesmo os sofrimentos pareciam encontrar nela um lugar silencioso onde repousar. Havia uma serenidade que não vinha de uma vida sem dificuldades, mas provavelmente de uma fé amadurecida por décadas de experiências.
Era mulher forte sem precisar levantar a voz.
Sábia sem precisar demonstrar sabedoria.
Religiosa sem transformar a fé em espetáculo.
Grande sem jamais deixar de ser simples.
E então chegou a manhã de 2 de setembro de 2026.
Uma manhã aparentemente comum para o mundo. Mas não para aqueles que a amavam.
Na calmaria, na suavidade daquele novo dia, Dona Mundoquinha fez sua Páscoa.
Partiu como viveu: discretamente.
Como uma oração que termina com um amém quase sussurrado.
Como uma vela que, depois de iluminar durante muito tempo, entrega sua última chama.
Como alguém que havia caminhado bastante e finalmente escutava o chamado para descansar.
Ficaram os familiares.
Ficaram os amigos.
Ficaram os lugares onde ela esteve.
Ficaram as fotografias.
Ficaram suas devoções.
Ficaram as lembranças de sua voz, de seus gestos e daquele jeito simples de acolher.
Mas ficou sobretudo o exemplo.
O exemplo de perseverança na fé.
O exemplo de profunda religiosidade.
O exemplo da mulher que soube enfrentar perdas sem perder a esperança.
O exemplo da professora que também ensinou com a vida.
O exemplo da mãe, da avó, da tia, da amiga.
O exemplo daquela que guardava muito no coração e dizia tanto por meio de sua simplicidade.
Existe uma história escrita nos livros e nos documentos. Mas existe também uma outra história, talvez ainda mais profunda, construída pelas pessoas comuns que sustentaram uma comunidade com suas famílias, seu trabalho, sua fé e seus valores.
Dona Mundoquinha pertence a essa história.
Seu nome passa agora da convivência cotidiana para a memória.
E enquanto alguém disser:
— Eu conheci Dona Mundoquinha…
ela continuará presente.
Enquanto um filho repetir um ensinamento, enquanto um neto contar uma história, enquanto alguém se lembrar daquela senhora de olhar sereno, enquanto uma oração for feita por sua memória, uma parte dela permanecerá caminhando pelas lembranças de Presidente Vargas.
Porque algumas pessoas não precisam de monumentos.
A própria vida se transforma em monumento.
Descanse em paz, Raimunda Nonata de Sousa Mendonça Frazão — nossa Dona Mundoquinha, Tia Mundoca, Vó Mundoca, professora Raimunda.
Que Nossa Senhora, a quem tanto amou, a conduza pela mão.
Que Santa Luzia, de quem foi fervorosa devota, ilumine seu encontro com a eternidade.
E que Deus, a quem entregou tantas orações durante sua longa caminhada, agora a acolha em sua infinita misericórdia.
Em 2 de setembro de 2026, Presidente Vargas não perdeu apenas uma de suas filhas.
Despediu-se de uma testemunha de sua história. E Dona Mundoquinha, que durante tantos anos guardou silenciosamente
Presidente Vargas dentro do coração, deixa agora seu próprio nome guardado no coração e na história de Presidente Vargas.
Descanse em paz, Dona Mundoquinha.
Sua missão terminou. Seu exemplo permanece.
Hilton César Neves da Silva
Pedagogo, com Especialização em Gestão Escolar integrada com habilitação em Administração, Inspeção, Orientação e Supervisão e em Psicopedagogia com ênfase em Educação Inclusiva, Professor dos Anos Iniciais das Redes Municipais de Ensino de Presidente Vargas e Vargem Grande, ex- Assessor Educacional do Município de Itapecuru Mirim (2021 e 2022), Ex-Secretário de Educação dos Municípios de Presidente Vargas (2017-2020) e de Itapecuru Mirim (2023 e 2024), Coordenou o Arranjo de Desenvolvimento Educacional Território dos Balaios – “ADE Balaios”, Membro Fundador da Academia Vargengrandense de Letras e Artes – AVLA, Membro Fundador da Academia de Ciências, Letras e Artes de Presidente Vargas – ACLAPREV, na qual exerce a função de Presidente, membro correspondente das Academias: Itapecuruense de Ciências, Letras e Artes – AICLA, João Lisboense de Letras e Artes – ACLAJOL e da Zedoquense de Letras- AZL, ex-Vice Presidente da Diretoria da UNDIME/MA (junho de 2023 a março de 2025), co-autor dos Livros: “O Iguaraense”, “Púcaro Literário IV, Itapecuruenses Notáveis III e organizador das Coletâneas “Resgate da História de Presidente Vargas” e “História da Educação de Presidente Vargas”; palestrante com ênfase em Educação, Família, Ciddania, Direitos Humanos e Competências Socioemocionais, Relações étnico raciais, Educação do futuro, BNCC, Novo FUNDEB, Indicadores educacionais, etc. Coordenador da Equipe de Campanha da Fraternidade da Diocese de Coroatá, Militante das Pastorais da Igreja Católica, como: Pastoral da Juventude, Pastoral da Família e Articulador do Movimento de Educação de Base – MEB da Diocese de Coroatá, Formador da Editora Moderna e do Programa TCE + Movimento (Caxias, Santa Inês e Bacabal), Articulador da RENAPAR – Regional de Itapecuru Mirim/MA.
Palestrante nos Municípios: Presidente Vargas, Nina Rodrigues, Primeira Cruz, Afonso Cunha, Santana do Maranhão, Pinheiro, Itapecuru-Mirim, Vargem Grande, Serrano do Maranhão, São João Batista, Coroatá, Codó, Caxias, Santa Inês, Bacabal, Icatu, Peritoró, Cururupu, Central do Maranhão, Anapurus, Mirador, São José de Ribamar e Santa Rita



























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